Eu me perdi tentando ser quem esperavam de mim

Tem dias em que eu não me reconheço.
Olho no espelho e vejo alguém funcionando, mas não exatamente vivendo.
Alguém que responde, resolve, se adapta.
Mas que, no fundo, não sabe mais o que realmente quer.
É estranho perceber isso.
Porque não aconteceu de uma vez.
Não teve um momento exato em que tudo mudou.
Foi aos poucos.
Um ajuste aqui.
Uma concessão ali.
Uma escolha que não era exatamente minha, mas parecia mais fácil.
Eu comecei a me moldar.
Para caber.
Para agradar.
Para evitar conflito.
E no começo, parece que funciona.
As coisas fluem.
As pessoas ficam.
Você sente que está no lugar certo.
Mas por dentro, algo começa a se afastar.
Você começa a duvidar do que gosta.
Do que pensa.
Do que sente.
Começa a depender mais da aprovação do que da própria percepção.
A medir suas decisões pelo olhar do outro, não pelo seu.
E isso vai acumulando.
Até que chega um momento em que você percebe que não sabe mais diferenciar o que é seu do que foi aprendido.
O que você escolheu do que você só aceitou.
Mas foi ali que eu percebi.
Eu não tinha me perdido de repente.
Eu fui me abandonando aos poucos.
Cada vez que eu disse sim querendo dizer não.
Cada vez que eu fiquei quando queria ir.
Cada vez que eu me calei para manter uma imagem.
Eu fui me afastando de mim.
E o problema não é se adaptar.
O problema é quando a adaptação vira anulação.
Quando você deixa de ser quem é para sustentar expectativas que nem são suas.
Quando você passa mais tempo tentando corresponder do que sendo verdadeiro.
E isso cobra.
Cobra na forma de cansaço.
De confusão.
De uma sensação constante de que algo está fora do lugar.
Porque está.
Você está vivendo uma versão que não te representa mais.
E enquanto você não percebe isso, continua tentando ajustar o externo.
Mudar rotina.
Mudar ambiente.
Mudar as pessoas.
Mas nada resolve.
Porque o que precisa ser reconstruído é interno.
E isso não acontece rápido.
Exige voltar.
Voltar para as próprias referências.
Para o que você sente sem filtro.
Para o que você gosta sem aprovação.
Exige reaprender a se escutar.
Mesmo que no começo seja confuso.
Mesmo que você não tenha todas as respostas.
Porque identidade não se cria de fora para dentro.
Se reconstrói de dentro para fora.
E aos poucos, você vai voltando.
Vai reconhecendo pequenas coisas.
Preferências esquecidas.
Limites que você ignorava.
Vai se reposicionando.
Sem precisar provar.
Sem precisar explicar tudo.
Só sendo mais fiel ao que você é.
Porque no fim, não foi o mundo que te perdeu.
Foi você que, tentando caber demais, deixou de ser.
