Saudade…

Saudade não é ausência.
Se fosse, bastava distância e pronto, resolvido.
Mas não é.
Eu te vi há poucas horas e, ainda assim, já tem alguma coisa em mim desorganizada. Não é carência, não é dependência, não é drama barato. É pior. É mais limpo. É mais honesto.
É como se o meu corpo tivesse registrado você em alta definição… e agora qualquer versão sem você ficasse em baixa qualidade.
O cheiro ainda tá aqui. Não no ar, em mim. Preso em algum lugar que não é memória e também não é físico. Eu respiro e, por um segundo, parece que você ainda está perto. E quando esse segundo acaba, vem um tipo de silêncio estranho… como se o mundo tivesse dado uma leve desafinada.
A sua voz não ecoa só no ouvido. Ela ecoa na decisão. No jeito que eu penso. No jeito que eu respondo o mundo. E isso é o que mais me desmonta. Porque não é só saudade de você… é saudade de quem eu sou quando você está.
E a sua pele… não é toque. É referência.
Depois que eu encosto, todo o resto perde um pouco o sentido. Como se o corpo entendesse exatamente onde deveria estar… e, quando não está mais, ele estranha.
E o mais brutal disso tudo é que não aconteceu nada.
Não tem briga, não tem afastamento, não tem fim.
Só passaram algumas horas.
E mesmo assim… faz falta.
Faz falta no detalhe pequeno, no automático. No impulso de pegar o celular sem motivo. No pensamento que vem pronto e não tem pra onde ir. No reflexo de querer compartilhar alguma coisa banal e perceber que banal sem você não tem graça nenhuma.
Isso não é sobre tempo.
É sobre impacto.
Tem gente que passa anos na nossa vida e não ocupa metade disso. E tem gente que, em poucas horas, bagunça a estrutura inteira sem nem tentar.
E eu fico aqui, lidando com essa espécie de presença que continua mesmo quando você já foi.
Porque quando é de verdade… a pessoa não vai embora quando sai.
Ela fica.
No cheiro que não saiu da pele.
Na voz que ainda atravessa o silêncio.
No corpo que aprendeu rápido demais onde queria estar.
E é aí que a gente entende, sem romantizar, sem florear…
Saudade não é sobre perder alguém.
É sobre perceber, cedo demais, o quanto já encontrou.
